A quantidade de calorias que uma pessoa consome influencia diretamente o funcionamento de diferentes células.

baixa caloria

Um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) tem mostrado como refeições menos calóricas têm um efeito protetor contra algumas doenças.

Alguns desses trabalhos foram apresentados no primeiro dia da FAPESP Week London, realizada entre 11 e 12 de fevereiro de 2019.

Os estudos foram conduzidos no âmbito do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (Redoxoma) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP.

“Buscamos olhar como alterações na dieta afetam o metabolismo e como isso acaba alterando a chance de ter doenças associadas à idade”, disse Alicia Kowaltowski, professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP).

Um dos experimentos do grupo, feitos com camundongos, mostra como uma dieta menos calórica pode proteger o cérebro da morte de neurônios associada a doenças como Alzheimer, Parkinson, epilepsia e acidente vascular cerebral (AVC), entre outras.

Os animais foram divididos em dois grupos. Os pesquisadores calcularam quantas calorias em média um dos grupos que comeu à vontade consumia e ofereceram 40% a menos para o outro. Depois de 14 semanas, foi injetada nos camundongos dos dois grupos uma substância conhecida por causar convulsões, dano e morte de células neuronais.

Enquanto os animais do grupo que comeu à vontade tiveram convulsões, os que tiveram as calorias restritas ficaram bem. Os pesquisadores então investigaram o que ocorria in vitro. Para isso, isolaram as organelas do cérebro de ratos, também divididos em dois grupos: os que comeram à vontade e os submetidos à restrição. Quando adicionavam cálcio no meio, observaram que a captação era maior nas mitocôndrias do grupo que ingeriu menos calorias.

A mitocôndria é a organela responsável pela produção de energia na célula. No caso dos ratos submetidos à dieta com restrição calórica, ela teve aumentada a capacidade de captar cálcio em situações em que o nível do mineral estava patologicamente elevado (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/23995/).

Insulina

No pâncreas, a restrição calórica mostrou-se capaz de melhorar a resposta celular diante do aumento na taxa de glicose no sangue. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão depois de realizar experimentos com culturas de células beta, que ficam nas ilhotas pancreáticas e são responsáveis pela produção de insulina.

Soro sanguíneo de ratos submetidos a diferentes dietas, semelhante às do estudo sobre os efeitos da restrição calórica nos neurônios, foi usado para nutrir as células, cultivadas in vitro.

Nas células tratadas com soro dos animais que comeram menos, a secreção de insulina pelas células beta ocorreu normalmente: pequena quando a glicose era baixa e alta quando a glicose era elevada. Nos animais que comeram mais (e se tornaram obesos), isso não ocorreu. O experimento mostrou que pode haver algum fator circulante no sangue que modifica de forma aguda o funcionamento das células beta.

Novamente, os pesquisadores levantaram a hipótese de que o fenômeno estaria relacionado com as mitocôndrias, já que a secreção de insulina depende da disponibilidade de ATP (adenosina trifosfato), molécula que armazena energia na célula.

Quando mediram o consumo de oxigênio pelos dois grupos de células, notaram que ele era maior nas células que receberam soro dos animais submetidos à restrição calórica. Como a respiração é responsável pela liberação de insulina durante a alta de glicose, era um sinal de que as células geram mais ATP nessa condição.

Outros experimentos mostraram ainda que as mitocôndrias das células tratadas com soro dos animais submetidos à restrição calórica trocavam mais material entre si, o que as tornava mais eficientes (leia mais em http://agencia.fapesp.br/25505/).

Envelhecimento saudável

Kowaltowski ressaltou que entender o funcionamento do metabolismo é fundamental para prevenir e curar doenças metabólicas como a obesidade. É sabido que ser obeso é um dos piores fatores prognósticos quando se trata de um envelhecimento saudável.

“Pessoas obesas são muito mais propensas a várias doenças relacionadas à idade. Isso vai desde doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, passando por doenças proliferativas como câncer e as doenças metabólicas propriamente ditas, como diabetes tipo 2, hiperlipidemias, infarto, acidente vascular cerebral (AVC). Tudo isso tem maior incidência em pessoas obesas”, disse a pesquisadora.

Ao prevenir a obesidade, previne-se essas doenças. No entanto, a epidemia mundial não diminui mesmo com os constantes alertas sobre a necessidade de alimentação balanceada e da prática de atividade física.

“Por isso, se procurarmos entender os mecanismos em que a obesidade aumenta essas doenças, teremos outras ferramentas para combatê-las e preveni-las”, disse Kowaltowski. 

Fonte Agência Fapesp